Azulejar


Azulejar

Esse texto faz parte do "O Livro do Recomeço", ed. InVerso.

Todo adeus é uma forma de amor, uma delicadeza. Toda sutileza confortada na paciência, no observar por inteiro, no respirar mais profundo, no respeito a todas as silhuetas que a natureza impõe, na reciprocidade da compaixão, na transformação do hoje, também é amor. É uma forma entre outras tantas, concluindo respostas, costurando semblantes, torturando espinhos, acariciando a vida. Continuando-a. É amar. É incapaz compreendê-lo por inteiro, vê-lo de longe como quem observa o barco que vai, que sai de cena.


Aquelas noites se perderam, entre primaveras e sintonias. Nem mesmo a contagem das horas seria possível ver passar o tempo, a materialidade das coisas enviesadas num sentimento. Cada instante. O momento derradeiro. O respiro mais profundo, delirante. Além de mim, o que me rodeia. O que me constrói e tudo que fica.


Nos olhos, o reflexo do mar salgado. O caminho oposto, edificado entre becos escuros, de fachadas complexas, ultimada na possibilidade de sonhos concretos. Os vividos. Sonhos que não deveriam ser somente sonhos, sem apoderar-se da ingênua realidade, corta-la ao meio, dividi-la, mitiga-la. De uma banda, fazer o que há de ser feito nesse mundo de contínuas realidades, enquanto de outra, restaria o elo perfeito, um único fio que ligasse o sonho ao inatingível, a todas as órbitas, ao impenetrável, ao único Ser.


Restam as coisas que ficam por dentro, indeterminadas, invertebradas. Um jeito de fazer, um modo de estar, companhia que preenche vazios, confortando o sentir, desconhecidos, a história reconstruída em rascunhos pequenos, as tentativas.


Saio, apenas adeus. Reluto calmamente o recomeçar inevitável. Dia após dia, sufocando horas, contando passagens, sorrisos. Sair, dizer adeus, ir. Pontuar observações, fechar começos, azulejar. Deixar para trás. Sair de cena. Recomeçar.

#poesia

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