Carta a minha amiga inglesa


Eu sinto muito minha amiga. Posso tentar entender o que você está sentindo e quão desesperador é tudo isso. A gente vem num embalo de coisas acontecendo, de emoções e de repente tudo aquilo que precisávamos dizer, escrever, gritar, não saí como esperávamos. Ninguém sente como a gente está sentindo. E tentar dizer da melhor forma o que se sente é uma preocupação que vem de dentro, necessária.


Eu ainda sinto o vento frio do Hyde Park sozinho. Estava com minha câmara na mão e o meu coração batia de forma eloquente, numa mistura de ardentes sentimentos. Tive medo de passar mal diante daquele imenso verde. Aquele grande caldeirão, no qual eu estava ao centro, entre ciclistas apressados e alguns galhos secos, típicos de janeiros, trouxe-me ao sertão de onde vinha e onde estou agora contigo em minhas mãos. Senti aquele frio como quem sente a chaleira ferver embaixo do meio dia por estas terras. E o frio aqueceu meu coração cheio de vontades e afetos.


Eu saí rapidamente do caldeirão que havia se formado e me deparei com a fantasia que é replicar gente, como uma maneira de estar perto daqueles que se ama. Reconheci alguns entre astros do rock e outras famosidades típicas daquele museu. Estamos sempre procurando no outro reconhecer o que existe ou falta em nós mesmos. Eu estava ali perdido no verde contraste, entre personas inanimadas e íntimas ao mesmo tempo. Então, familiarizado com o verde, já não me sentia mais só entre elas. Esse mesmo conjunto de sentimentos que você acaba de me relatar nestas páginas estava ali, ainda que em minha língua seja ele apenas uma palavra.



Tantas semelhanças eu poderia listar entre aquele instante e este lugar que sempre me embalou. Ser acolhido pelo que a gente reconhece no outro é revelador de quão único somos. Talvez seja isso que você queira me dizer com todas essas palavras. Talvez a única coisa que tenhamos a dizer nestes momentos é o quanto este sentimento é importante e presente em nossas vidas distantes.


Eu já foleei suas entranhas em busca de uma palavra que satisfizesse uma inquietação, que nos aproximasse como tão próximo sei que somos.






Não foi a única vez que me senti assim perdido e acolhido, em sentires antagônicos, de fisionomias invertebradas, em busca de algo. Eu sou, como sei que você também, um contemplador de almas. Somos. Ainda que essa coisa de alma esteja em nosso imaginário como algo que integra a pele, para nós, vai além do que nos reveste, do que a gente aparenta ser. Transcende a materialidade das coisas que se tocam. Nos tocam. Eu compreendo tudo o que foi dito por você nestas páginas espaças. E compartilho do teu dizer prolixo.


É que essa coisa de ser de um lugar cheio de memórias de outras nações nos faz um ser complexo para ser entendido apenas assim cronologicamente. A nossa lógica é uma mistura de identidades. Um experimento genético que Deus ousou fazer, brinca com ele, e o renova a cada instante. Somos os jovens do mundo e sentimos pelo mundo o respeito e a admiração que se sente pelos mais velhos. Por isso compreendo sua aflição ao querer simplificar o que somente crianças podem dizer. Nós estamos inteiramente ligados aos avós, e nossos avós já passaram dos 900 anos. Crianças e avós falam a mesma língua desde sempre.


Estava ansioso para ler cada uma dessas páginas. E agora que cheguei a última delas sinto certo alívio de compreender o que você quis dizer desde o princípio. Eu sinto o mesmo que você sente. Eu recordo cada palavra em cada página sorrindo sozinho, aparentemente sem motivo. Li em voz baixa como estivesse naquele parque verde. Meu coração salta da mesma maneira, num desgaste elástico entre o distante e o perto. Faço as coisas mais lentamente para que este momento não vá embora. Fixo-me nas últimas folhas.


Antes de te fechar, guardarei este capítulo na memória, porque sentir saudades é tudo isso. Mas, não se preocupe, entenderei quando na próxima edição, nos próximos capítulos, depois de todo sentimento, você disser apenas, ainda que na primeira folha, “I miss you”. Eu também.




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