O Poeta e a Criatura


- Então, adivinhe onde estou.

E a criatura responde: em Dubai.

- algo mais próximo.

- na Europa.

- algo mais íntimo.

- Em Portugal.

- algo mais meu.

- No Rio de Janeiro.

- num lugar mais agitado.

- Já sei, estas em São Paulo.

- Em todos esses lugares ao mesmo tempo.

- como assim?


E a Criatura, decepcionada, mas tocada pela sensibilidade que transforma a realidade em fantasia, permitiu-se ao silêncio como quem se deleita do proibido, do pagão. O Poeta pastor, respeitando o respiro profundo, partiu em busca de outros discípulos. Nunca esquecera da Criatura. Aguardava seu retorno. Sentiu por não ter deixado outros ensinamentos, pois há sentimentos que precisam ser ditos sem imaginação.


O tempo tão bom em tantos momentos. O tempo que dói entre pausas embevecidas de vontades. O tempo que passa sem ser compreendido. O tempo que voa sem asas. O tempo que resta não é nosso tempo. É tempo.


Essa é a história do Poeta que foi questionado pela Criatura onde estaria ao tecer certas palavras. É também a história do tempo de cada um. E do ofício impregnado na gente. Do que a gente deixa de viver.


No reencontro esperado. Ansioso, o Poeta puxou a fala:


- Eu sempre estive em mim.

E a Criatura retrucou de pronto:

- E eu a navegar entre linhas, a pontuar distancias, a contemplar a vida como um menino e o sopro, a dar-me tempo, a distanciar-me para ver. A viver mais que o agora.


A amizade continuou a mesma, repleta de alegrias. Entre a poesia e o vazio, a escuridão. Lugar agora bem distante da Criatura, mas ainda visitado pelo poeta. O pastor vai para onde falta luz.



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