A Copa e o menino com o Olodum


É do meio do campo que a bola rola e os jogadores começam a se espalhar. As coisas se espalham. A felicidade, a tristeza, assim como a vitória e a derrota. E isso é uma certeza. Parto do princípio que só haverá um vencedor se houver um perdedor. Mas não é simples assim. Choro, alegria. Felicidade de muitos, tristeza de muitos. Uns seguem, outros voltam. O grito do narrador na tv se apaga para começar a novela.


A torcida pálida, atônita, confusa, segue em direção ao metrô. As escadas são intermináveis. Hipérboles me consomem. Um homem grande demais em minha frente. Um criança calada, um velho calado, um país calado. Outras alegrias virão, penso. É que neste momento, nesse pequeno instante do terceiro tempo, é hora de ir. E partir, assim, é ruim, embora esperado. Uns ganham, outros atrasos.


Outras alegrias virão. As do cotidiano estão atreladas a este momento. É o coffee break dos americanos, a siesta dos espanhóis, a meditação dos indianos. Um intervalo. Uma pausa entre o hoje e o amanhã. Um suspiro, um alívio, uma comemoração, um gol.


O Olodum calou seu grito. Tambores baixos, camisas nas costas, enfileirados, seguem para o metrô. O executivo calou seu grito. Fechou o computador, arrumou a gravata, mexeu com a colher de chá seu café frio, segue para o metrô. O menino nas costas do pai com a camisa amarela, o carrinho de caipirinhas, uma multidão segue para o metrô.


Encantado com aquelas cores, o menino puxa assunto com o Olodum, que responde com uma batucada. O menino repete os ensinamentos. O ambulante, animado por ter faturado mais do que o do mês, puxa um coro de orgulho de ser. Animado, pois estava cansado do dia, do jogo apertado, o executivo afrouxa a gravata. Torna-se outro. Mais a vontade, participa do coro.


A mulher de lenço na cabeça, com o carrinho de verduras, prontas para o jantar, sorri. Já não é o mesmo metrô de todos os dias, cheio de homens a empurrá-la. Sente-se segura, relaxa numa feliz identidade. A mesma do torcedor menino com o Olodum. Felicidade contagia. Vai ganhando a gente. A gente esquece do dia a dia, da raiva que passou, do filho que atrasou na escola, do engarrafamento no trânsito, do mercado que está mais caro, da verdura. A mulher de lenço na cabeça quase esqueceu as verduras do jantar no metrô. A felicidade é de cada um, mas a alegria contagia, vai tomando a gente.


O jantar foi mais cedo aquele dia. Todos foram liberados mais cedo de seus afazeres. A mulher aproveitou para colocar bobs no cabelo, saiu para comprar verduras: cenoura, chuchu, pimentão, batatas inglesas. Faria sopa. Sentado à escrivaninha do quarto improvisado num escritório, o marido fazia as contas. Final de mês. A mulher, ainda contagiada pelo que contagia, aproximou-se de seu amado convidando-o para o caldo quente. Ele quis falar sobre os boletos, sobre o final de mês. Ela, contagiada, serviu duas conchas do caldo. Sorriu.


- Perdemos o jogo.

- sim, eu sei, respondeu a mulher.


O marido não entendia a alegria da mulher. Mas respeitou aquele momento doméstico. Sentados à mesa a mulher comentou sobre as batidas do Olodum no metrô. O marido riu. E ela contou que quase esquecera as verduras, e sobre o executivo que gentilmente lhe cedera lugar. O marido já não sabia sobre o que ria, se das aventuras vespertinas ou da alegria da amada. O jogo, o metrô, o Olodum, o menino. A bola que contagia.


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