Concorrência

May 5, 2018

 

Não suporto gente que reclama de tudo. Sabe aquele tipo que chega perto e você já sabe que ela vai reclamar de alguma coisa? Se tudo está bem, essa gente procura qualquer motivo para despejar sua insatisfação em alguma coisa.

 

Outro dia eu estava numa fila, quando ouvi um burburinho. Era um rapaz reclamando de alguns minutos de espera. Eu estava ali na frente dele, já esperava há quase uma hora, ainda que estivesse contido em minha ansiedade. Respirei fundo para não me envolver no burburinho, pensei que talvez a pressa dele tivesse mais razões que a minha, quem sabe é algo urgente, quem sabe ele esta passando mal. Fui longe nesses questionamentos, mas a realidade me trouxe de volta a fila do cinema e achei que era demais (na fila do cinema!) aquela cena toda, típica de filme pastelão. Continuei de pé olhando para frente e ignorei a proximidade do burburinho.

 

Tudo bem, esperar não é bom, ninguém gosta, mas será que as vezes não é preciso esperar?  Será que nem mesmo no lazer podemos ser mais pacientes?  Ter paciência faz parte da vida, mas é um dom também.

 

Cena pior presenciei quando o voo de janeiro passado atrasou por algumas horas. Eram minhas férias, e para mim não havia motivo específico para reclamar por algumas horas de atraso. Uma fila logo se formou no balcão de atendimento a clientes, vouchers foram distribuídos para um lanche. Achei até que seria produtivo esperar, colocaria a leitura em dia. Mas, de repente, vi gente pular o balcão da companhia aérea para descontar toda sua fúria sobre os atendentes. Reclamar com razão faz parte, é uma forma de corrigir erros, de exigir que direitos sejam observados. Mas, não entendia porque tanta fúria sobre os mesmos funcionários que haviam atendido uma fila inteira bem e cumprido suas obrigações de informar sobre o atraso.

 

O que atendentes tem a ver com atrasos de voos por motivos climáticos?  Eles nem conhecem o piloto, não entendem de aeronaves (além do necessário para embarcar passageiros), nem de meteorologia. Eles fazem parte da empresa, é verdade. Mas o que deveria fazer, foi feito.

 

Fato é que tudo que faz parte colocamos no mesmo bolo, criticamos da mesma forma, consideramos tudo o mesmo, se é de lá não é de cá, se é preto não é branco, e ignoramos os cinzas, o meio, e toda diversidade, pluralidade, por ser mais fácil resolver as coisas assim binariamente. Dos outros que ali obrigados assistiam aquela cena, o furioso queria era aplausos. Julgando-se líder dos supostamente prejudicados.

 

Eu prefiro esperar horas, e até remanejar meu voo, a insistir que o piloto faça uma viagem sobre riscos, qualquer que seja. Não me interessa se o problema é do clima, da manutenção ou simplesmente do atraso da tripulação. Realmente não me interessa. Contenho minha ansiedade e aguardo o procedimento. Já pensou insistir que uma tripulação viaje com dor de barriga?  Ou que o problema do atraso seja a notícia que a vó do piloto acaba de falecer?  Saber o que está realmente acontecendo talvez seja difícil, mas prefiro acreditar que uma companhia aérea prefira não atrasar sem motivo.  

 

Entender cansa muito mais que apontar o dedo, julgar, exigir supostos direitos que imagina ter.  Pelas demoras, atrasos e cancelamentos, o aeroporto é um bom lugar para observar a fúria de pessoas chatas e que reclamam de tudo.

 

Enfrento filas todos os dias e, pelo trabalho que levo, é fácil me encontrar na sala de embarque de algum aeroporto mundo a fora.  Se um dia você me encontrar por horas lendo aquele livro na sala de embarque, provavelmente estarei curtindo um voo atrasado. Nem quero pensar se houve algo com o piloto ou sua família, ou se vai relampejar mais que o normal, prefiro me entreter com o último capítulo daquela história do livro. Cada uma faça a sua parte e que tenhamos bons voos.

 

De gente que reclama estou cheio, basta eu a reclamar dela. Acho que o que eu não gosto mesmo é de concorrência.

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