Borboletas na Janela

May 27, 2018

Borboletas na janela

 

 

 

 

De mim eles tudo queriam. Tudo que estivesse ao seu alcance deveria ser sugado. A gente não percebe nas pessoas quão grande é seu egoísmo até que de repente borboletas aparecem na janela. De todos os sentimentos que existem, o egoísmo talvez seja aquele mais profundamente degradante. Ele vai corroendo o ser, até que a gente perceba ser presa e não querer sê-la. Nem mesmo predador.

 

Existem as formigas, os mirmecófilos, e outras lagartas, as aranhas, os louva-deus, as vespas, aí vem as borboletas como presas fáceis da poesia, da rede de caça, a mesma que enjaula o peixe e a galinha, e que irrita o galo que impõe respeito, o mesmo do leão, e da raposa que fica distante dos outros, porque assusta. Aí vem o homem. E depois dele um outro homem. E outro. E outro que se sente acima. E os dinossauros que já não existem, não trazem medo. Mas há o universo, ainda que o homem esqueça a existência dele. Aí o homem olha para o lado, olha para baixo e vê a raposa, e se assusta. E mata ela. E noutra oportunidade, o leão mata o homem. E só sobra a barata e o universo, o mesmo que o homem ignorou.

 

É que o homem ignora. Passa por cima, ainda que esteja geograficamente abaixo. E como defesa passa a dominar território, a avançar, querer tudo para ou seus. Tira do outro aquilo que o faz ser o que nem mesmo quer. Egoísmo. Um ganhar por ganhar, para matar a fome que nem sente. O homem não pensa quando esta prestes a engolir. Apenas engole.

 

Aí eu vi o garoto, o mesmo que acabara de chegar em mim, um menino à distância. Não faz diferença. A diferença está como ele vê o predador e a presa. Quem sabe um dia as formigas compreendam os mirmecófagos, e os louva-a-deus as vespas, e a rede seja, em relação as borboletas, apenas um instrumento a capturar poesias.

 

Em minha cabeça ele enxergava tudo isso, e dessa forma, defendia-me disparando raios de luz vermelha a partir de seus olhos. Eles atravessavam a sala e fulminavam homens de preto. Estava constantemente pronto e disfarçado de tudo: de invisível, de simpático, de presente, de contente. Hipocrisia talvez? Talvez hipocrisia.

 

Mas o que faz de mim competente é estar presente. Agora, então, trago o menino dos raios na minha cabeça e, para contrariar, ele começou a agir. Desejou que o cavalo cai-se. E o barão com sete estrelas no peito, cheio de desejos e primosidades, interesses de quem veio de longe, caiu do cavalo e pôs-se de volta. O menino e eu nada fizemos de concreto para isso. Aperto de mão, como qualquer uma naquela sala. Talvez ele tenha usado os raios vermelhos. Acho graça.

 

Depois de tanta conversa fiada naquela reunião, era hora da resposta, de lavar a burra. E o menino lambuzou-se da ignorância alheia. Colocou-a em potes transparentes, enfeitou a sala e o quadro negro. Deu uma aula. A todo instante se punha a abrir os potes para que pudesse escapar um pouco da ignorância e ele pudesse rir dela. Era sarcástico eu sei, mas isso não o define. Era defesa de presa.

 

O menino viu que naquela sala tudo havia sido feito nas coxas. Estava prestes a ser rapidamente enganado. E sentados os escravos mandados enchiam as pernas de barro formando telhas de qualquer jeito. E tudo aquilo que era só imaginação, tornou-se somente parte dela. Desejo fantástico a fantasiar aquele cotidiano cheio de competições, intrigas, disputas, buscas. Sentia-se melhor assim, fantasiando em si um Dark Vegan, enquanto enchia de adoçante o café na xícara espelhada no meio dos oito metros de mesa de reunião.

 

Não fazia sentido inventar realidades. Elas o consumia diariamente e enfeitavam seus cabelos brancos. Então se punha menino com olhos fixos a disparar raios vermelhos. Melhor assim. A derrubar cavalos, a lavar a burra, a identificar coxas apressadas. Estava ali, frente a homens de preto, elegantemente vestidos. Sorriam como quem solta raios vermelhos, eram espertos como quem lava burras, e rápidos como quem sem preparo resolve ganhar de qualquer jeito. E o menino ali para ser devorado como formigas, borboletas e vespas são devoradas. Continuou elegantemente sentado de preto como todos eles.

 

Insistente, o menino e eu aguardamos o fim do filme que haviam despertado. Precisávamos confirmar com assinatura a fome de vespas, moscas, lagartas e rede de borboletas. Olhava para todos em volta, cheios de raios vermelhos e gel nos cabelos. Gravatas pontualmente alinhadas. E lembrei-me dos cavalos que caem, das burras lavadas e das coxas dos escravos que formavam telhados desiguais. E o menino lembrou-me das formigas e do universo. Homens vestem ternos pretos e gravatas alinhadas para não deixar escapar o que pensam. Gravatas alinhadas e ternos pretos não dizem nada. Fingem imparcialidade.

 

O menino pegou o filme que rodava em sua cabeça, aqueles personagens. Recitou poesias para todos eles por não suportar ler tudo que tivesse mais que 140 caracteres. Precisava dar um jeito naquela reunião. Acalmou a todos com suas palavras disfarçadamente infantis. A arte existe porque a vida não basta, a realidade não basta. Era preciso confiar, apagar olhos vermelhos, acreditar na formiga e em Deus ao mesmo tempo. Fazer colagens. Acreditar que nem sempre somos presas, estamos presos ao que queremos.

 

Haviam passado alguns minutos naquela sala quando uma formiga invadiu minha xícara. Ela voltaria desapontada, olhos vermelhos apagados. Não que tivesse encontrado uma lagarta ou estivesse frustrada por não atingir o universo. O café frio estava docemente camuflado com adoçante. Não é preciso ser presa ou predador para ganhar espaço, obter respostas. A vida seguiu entre compromissos superados e livros espalhados de poesias, as que me distanciam de papeis pequenos. E O menino continua a despertar borboletas na janela.

 

 

 

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